não vi pedaços de mim em você

 Existe beleza no sofrimento, é impossível negar. Vivemos numa escola integral que ensina a afastar a romantização da dor, mas está em todo lugar a admiração que a gente sente por quem insiste, por quem dá o braço, a perna e a cabeça a torcer. 

Você me trouxe buquê de flores improváveis, ouso dizer que eu nem sabia que eram flores mesmo, de tão raras, exóticas e proibidas. Você arrancava quase todos os dias flores em extinção só pelo prazer de me entregar (não sei se pela sua reação ou pelas minhas - e talvez eu nunca descubra), até que um dia não arrancou e em outro dia arrancou e atirou pela janela. E depois, em outro momento, ficou inerte, me olhando de forma tão profunda que parecia que os olhos me atravessavam, mas não me viam mais. Até que um dia seu silêncio começou a incomodar como uma música ruim, numa voz desagradável. Até que em uma tarde a primeira árvore caiu e fez um grande barulho e me perguntei o porquê de ouvir algo tão ensurdecedor em um lugar que eu não deveria estar (ela faria barulho se eu não estivesse lá? E eu não devia estar).

Muito silêncio e muito barulho intraduzíveis nesse lugar perdido do tempo-espaço. A gente não cabe aqui. Talvez eu sozinha ou talvez você. A gente, jamais. E então levantei da cadeira, bati o pó imaginário da roupa (imaginário porque o tempo foi rápido, nenhuma poeira teve tempo para sentar) e coloquei o pé na estrada, não te dei tempo para um abraço final, não te dei tempo de assistir meu passo vacilante porque não vacilei, porque saí com pressa para não dar tempo de eu mesma ter tempo ou dúvida. Estou a mais de 5 mil km e ainda olho pelo retrovisor esperando te ver, mesmo sabendo que não irei.





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