Os detalhes discretos da vida são os mais engraçados. Existe um alarme de fundo que dispara em cada situação de perigo, não acredito que nenhum deles soe numa frequência inaudível, a nossa capacidade de ignorância é que engrandece diante de nós, adaptamos nosso ouvido aos gritos, berros e barulhos insuportáveis porque achamos que o ganho oculto pode ultrapassar o sinal vermelho.
É difícil dizer o que estou fazendo no meio desse mato sem cachorro (até sem mato, pra ser mais realista), o que estou exatamente esperando a não ser o que sempre esperei? Um milagre, um apocalipse. Eu espero o desmonte da minha vida inteira, do universo inteiro que construí (e construo) com tanto pulmão e coragem.Como é possível que eu seja uma adversária tão forte de mim mesma? O que me leva a entrar em ambientes tão inóspitos? Aqui não tem nada para mim, nem mato e nem cachorro. Talvez exatamente por isso, talvez o cansaço de ser eu mesma diante da vida. Talvez a esperança de um dia acordar e ser uma folha em branco, capaz de qualquer coisa que eu nunca fui (e nem seria).
Continuo acreditando que posso ser alguém melhor, mesmo que isso cause tantas cicatrizes e perdas e é nessa crença que a gente não se sustenta, você não se mantém em pé nessa plataforma que é uma extensão de mim, mas então quando a gente se encontrou nesse meio do tempo, nesse lapso quebrado do universo, nesse breve pulsar inapropriado de um tempo que eu não calculei, não pedi, não previ, então é aqui que sinto vontade de me anular para caber em nós, sem saber quem somos nós, sem saber o porquê ou para o quê, apenas no ritmo animalesco que existe em cada alma, como se eu pudesse, enfim, descansar da minha cabeça e entregar a chave da minha direção pra você me levar para qualquer lugar onde existam novos matos, cachorros ou espécies que nunca consegui nem imaginar.
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