Vejo as águas que se quebram em pedras tão duras, outra água, outras ondas, outra pancada, outro ciclo, uma eterna dança que (dizem): às vezes, fura. Mas não importa quão bonita seja a praia, o quadro, o cenário imaginário, em meu peito continua aquela hora tão sombria, a falta de luz solar, o roubo de sentimentos, a vida saindo pela boca, pela alma, pelo coração. Alguém falou alguma coisa sobre a banalização do mal, alguém muito importante, uma mulher muito importante. Não sobre a banalização do ser humano, da vida, mas do mal. E muitas vezes me perguntei o que será que assombra tanto soldados no pós-guerra e é possível que eu nunca saiba, mas o que é ganhar uma guerra? O que é brigar com a morte? O que é que a gente carrega para casa ao fim de uma batalha? O que sobra de nós numa cena escura inundada de medo, de roubo mental, o que significa vitória, glória, sucesso final? A morte nunca vai embora sozinha, mesmo quando vai. Sinto que não tenho canal para conversar com ela, não sei se por menor querer dela ou meu, mas sei que brigamos muitas vezes, ambas geralmente contidas, sorrateiras, educadas, sabendo que em algum momento a gente vai se abraçar numa dança ou numa briga (ou em várias brigas) e que ela vai roubar de mim alguma coisa, mesmo que pouca (algumas vezes, muitas coisas e algum dia: tudo). Fico com questões que me perguntam se você me deixou vencer dessa vez, se tive sorte e revisito o cenário e examino cada parede frágil, a porta da casa que foi quebrada no exato dia anterior, a luz que não funcionou no exato momento de sua chegada. Que sorte seria essa, então? E então vacilo de novo e penso que eu não deveria ter lutado com armas e sim com as mãos. Mas por quê? Para que? E então a água, batendo, quebrando, vacilando como meus batimentos têm vacilado, como minha expiração é dolorosa, como estou assustada e pareço diminuir a cada dia, não consigo olhar pra frente, não consigo caber em mim, não consigo voltar pra casa... Quantas noites são necessárias para que uma noite de guerra acabe dentro de nós?
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